Matéria sobre a Nação Zumbi na Rolling Stone - 12/2007
Postado por: homenpe em Nação Zumbi A Nação Zumbi lança o oitavo disco, Fome de Tudo, criado a partir da troca de arquivos pela rede, e segue no posto de melhor banda do Brasil.
O combinado era estar em uma padaria no começo da Avenida Sumaré, em São Paulo, às 10 da noite. A partir dali, o caminho seria feito de van, para o que seria o show de encerramento da turnê de Futura (de 2005), o sexto disco da carreira da Nação Zumbi, em Bragança Paulista (SP). O primeiro a chegar é Valter, mais conhecido como o percussionista Toca Ogan. Baixinho e simpático, esconde-se sob o boné e senta a uma das mesas. Nina Cavalcanti chega com suas câmeras, ela filmou o grupo durante as gravações do novo disco em abril deste ano e registraria a apresentação a seguir.
O baterista Pupilo é o próximo a chegar. Com seu jeito de moleque, ele começa a soltar as primeiras piadas da noite. Com o cabelo desarrumado enfiado em um gorro, é o integrante mais carismático, embora a postura tensa e séria na bateria dê outra idéia. Chega o guitarrista Lúcio Maia, com seu indefectível chapeuzinho, e cumprimenta a todos enquanto entra na padaria. Surge Caio Mariano, advogado e compadre da banda. O vocalista Jorge du Peixe, o mais quieto de todos, desembarca e o baixista Alexandre Dengue aparece por último, depois que os percussionistas Gustavo Da Lua, Gilmar Bola Oito e Marcos Mathias já haviam subido e tomado conta da fileira de trás do lotação – Da Lua rindo mais do que todos, puxando piadas bestas e aleatórias após palavras ditas pelos outros.
Pessoalmente, eles não chamam atenção. São pessoas normais até demais que seguem alguns preceitos da estética contemporânea. Apesar de serem uma geração mais velha do que a de bandas como Hurtmold, Los Hermanos, + 2 e Instituto, eles também freqüentam sebos, importadoras de CDs e brechós, botecos na Vila Madalena e na Lapa e no Baixo Gávea, no Rio; shows no Sesc e festas em casas de gente da moda, da TV e do cinema. Curtem hip-hop moderno, dub e reggae roots, MPB dos anos 70, eletrônica cabeçuda e microvariações de black music do passado. Prezam pelo vestuário bom-moço (cabelos curtos, boinas, camisas de gola, calças de pano) com algum tempero velha-guarda, calçam invariavelmente tênis. Conheço esses caras há tempos – rimos sempre da cara um do outro, conversamos sobre música e sobre as novidades que cada um tem feito. Mas o clima de camaradagem dissipa-se à medida que o assunto é o novo disco.
Fome de Tudo, o oitavo da Nação Zumbi, surgiu no meio do ano passado, quando o grupo foi convidado pelo diretor mexicano Aaron Fernandez para compor músicas para seu novo filme, Partes Usadas. “Pintou de fazer a trilha em uma época em que a gente tava meio disperso. Mas, quando começamos a compor, descobrimos outra forma de trabalhar”, conta Pupilo. “A gente começou a mandar os fragmentos de música uns pros outros”, continua o baterista. “Eu fazia um beat, mandava pra Jorge, que fazia uma coisa e mandava pra Dengue que mandava pra Lucio, que botava uma guitarra. Cada um incluía o que queria.” A troca de arquivos digitalizados via internet fez com que o grupo bolasse algumas bases sem precisar reunir-se em um mesmo lugar. “Lucio pôde gravar umas guitarras em casa, Pupilo também…”, explica Jorge. Dengue brinca: “É um material bruto gigantesco, é um pé no saco ficar ouvindo”. “Mas no fim funciona como uma jam session”, conclui Pupilo. As duas músicas compostas para o filme – “Toda Surdez Será Castigada” e “Onde Tenho que Ir” – seriam reaproveitadas no disco que começou a ganhar vida após um ensaio em Recife, em 2007, quando passaram as novas idéias de música em uma reunião presencial. Pela primeira vez numa carreira com quase 20 anos, a Nação Zumbi quebrara o processo tradicional de composição automática – em que música e letra surgiam durante ensaios e passagens de som.
Foram três ensaios, mas a gênese de Fome de Tudo já estava toda no primeiro encontro. “Uma coisa ou outra até nasce na passagem de som. A gente grava com o celular também, senão acaba esquecendo”, explica Jorge.
A Trama, casa da banda desde 2002, passava por reformulações que inviabilizariam um disco para a Nação em 2007. “João Marcello [Bôscoli, presidente da gravadora] deixou isso muito claro, foi uma separação tranqüila, nos damos muito bem com a Trama”, conta Lucio Maia, cujo projeto solo, Maquinado, lançou disco pela gravadora.
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