“Já a história com a Deck é antiga. Desde a época do Rádio S.Amb.A. (2000) eles já queriam assinar com a gente, mas aí optamos pela YB, achando que poderíamos desbravar a selva do independente. Mas nos demos mal, porque nossos facões ficaram cegos logo”, ri o guitarrista, desconversando. Nesta transição, outra gravadora entrou no páreo: “A EMI também ficou muito no encalço”, lembra Lucio. “Isso acabou acelerando o contrato com a Deck. Em certo momento, fomos fazer um show no Rio e tinha gente da Deck e da EMI em nosso camarim, nos assediando.”

A possibilidade de gravar com Mario Caldato também desequilibrou para o lado da Deck. O produtor brasileiro que ajudou os Beastie Boys a moldar seu som nos anos 90 é conhecido da banda e do pop brasileiro da época. Além de amigo do próprio Chico Science, Mario C também remixou a banda em seus primeiros discos, nas faixas “Maracatu Atômico” (do emblemático Afrociberdelia, de 1995) e “Amor de Muito” (do duplo CSNZ, gravado após a morte de Chico, em 1998). Além da Nação, Caldato conhece bem seus companheiros de geração: produziu dois discos do Planet Hemp e faixas de Bebel Gilberto, além de ser apaixonado confesso pela música brasileira dos anos 60 e 70. Foi ele um dos motivos para a banda fechar com a Deck – era um nome com quem o grupo queria trabalhar há tempos.

A banda se reuniu em um estúdio em São Paulo para gravar as versões finais do que vinham bolando em casa. Quando entraram no estúdio Tambor (RJ) com Caldato, tudo foi muito rápido. “As músicas já estavam prontas”, conta Dengue. “As bases foram gravadas em nove dias”, continua Lucio. “Depois levamos mais tempo para gravar as vozes, mais à vontade. Mario também ficou feliz pra caralho. Ele nos deixou despreocupados pra que a gente pensasse só em música.”

A velocidade de produção e gravação reflete-se claramente no ritmo de Fome de Tudo. “Depois que gravamos a primeira parte, Mario voltou lá pra fora e me deixou com as músicas no computer, mastigando as letras. Ele foi bem claro: ‘Não quero que você leia as letras. Se você lê, não tem uma maleabilidade que tem ao vivo’”, lembra Jorge. As gravações terminaram em São Paulo, no estúdio YB. “As participações vieram no caminho”, continua du Peixe, citando Money Mark e Céu, entre outros. “Junio Barreto [co-autor de “Toda Surdez Será Castigada”] é um cara que admiro há um tempo e a gente já tinha a idéia dessa música. Um dia, cantarolando um trecho pra ele numa ocasião, Junio falou: ‘deixa eu fazer uma emenda’. Aí, quando o chamei, ele topou na hora. Mandei a música por mp3 e ele a trouxe depois”.

Se Junio se confunde com a banda, os arranjos do maestro Ademir Araújo em “Nascedouro” se sobressaem: “O maestro Ademir é um cara que é conhecido do frevo, mas me chamou atenção quando ouvi os arranjos de metais dele pro disco de Erasto Vasconcellos produzido pelo Fábio, do Eddie”, recorda Jorge. “Os arranjos são muito bons, mais joviais, parece arranjo de gafieira.” A participação do maestro no disco aconteceu antes de ser anunciado que ele seria um dos homenageados do carnaval pernambucano de 2008.
“O Futura (2005) é mais denso, até pelo conceito de psicodelia em preto e branco, enquanto este tem nosso lado mais leve e mais rápido”, explica Pupilo. “Rápido no andamento das músicas, no processo de fazer, no acabamento.” Jorge segue: “O estúdio é um parque de diversões. E chegamos com o disco quase 70% pronto. No Futura não rolou pré-produção, foi mais seco. Até o final da mixagem eu ainda tava botando letra”. O baixista completa: “Não é que o Futura seja um disco pra baixo, mas acho que esse é mais pra cima. As músicas estão mais dançantes e o Mario acentuou o que a gente quis fazer.”

Enquanto Futura era torpe e pesado em decorrência da forte influência dub sobre o disco, Fome de Tudo vem mais elétrico e incisivo, com as guitarras de Lucio segurando bases afro-funk, o ribombo dos tambores equilibrando uma bateria repicada e acelerada no contratempo, enquanto as letras enfileiram mais informação do que abrem espaço para a introspecção, seja lírica ou instrumental.

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