As músicas contam com uma velocidade pouco usual para os anos da banda como uma única usina de som – e não como a banda que acompanhava Chico Science.

O disco roda duas vezes no som da van antes de chegarmos ao Galpão Busca Vida, um tipo de recreação comum no interior de São Paulo. Não é uma “balada”, como diriam os paulistanos, mas também não é apenas um show. O chão de terra batida não é falta de investimento, é estilo. Alguns dos jovens universitários que freqüentam a casa usam sandálias de couro, roupas de tecido cru e vestidos de alcinha, mas não são a maioria. Há gente de todo o tipo, e só quem morou em uma cidade universitária sabe como um show de uma banda com um determinado corte musical move toda a comunidade para o mesmo lugar. Não há espaço para o rock nesta geração – os indies são velhos demais, os emos ainda nem chegaram à faculdade.

O tal Busca Vida em que a banda se apresentaria naquele sábado era um galpão como seu nome entregava. A van encosta próximo a um chalé de madeira que fazia as vezes de camarim. Um grupo de maracatu animava os presentes. Não era nem uma hora da manhã ainda, as pessoas não tinham pressa.

Este é o público não apenas da Nação Zumbi, mas de todo o filão de grupos que saíram de Pernambuco após o acontecimento do mangue beat, no começo dos anos 90. A presença das alfaias – os enormes tambores de maracatu que caracterizavam a Nação, tanto quanto seus colares, chapéus de palha e óculos escuros dos primeiros anos – logo deixava de ser um charme cênico pernambucano para aparecer em grupos de outros estados e regiões do Brasil. A morte de Chico Science, em 2 de fevereiro de 1997, acelerou a influência dessa cena no resto do país, ao mesmo tempo que a tornava, para todos os efeitos, horizontalizada, sem um líder ou porta-voz. Não que Chico Science fosse líder ou porta-voz de sua geração. Ele era um agente dinâmico que preferia colocar as coisas em prática em vez de ficar teorizando sobre as possibilidades disponíveis. Sua morte consolidou sua figura icônica como uma mistura de Raul Seixas, Che Guevara e Bob Marley, protagonistas de uma utopia hippie politicamente incorreta, romântica e possível. Canonizado na prática, Chico tornara sagrada a Recife que cantava, ao mesmo tempo em que injetara o gás essencial de auto-estima em toda a sua geração, que começou a produzir discos em série.

Se no começo a Nação Zumbi dividia o holofote com o Mundo Livre S/A, foi a partir da morte de Chico Science que surgiu o panteão de um novo Nordeste que mostrava a complexidade típica do funcionamento em rede, que começara a funcionar a partir do manifesto-release que colocou o mangue beat no mapa do pop brasileiro. A cena de Pernambuco era complexa e hierárquica como uma Camelot de pele morena e olhos claros, e incluía nomes como Otto, DJ Dolores, Devotos, Mestre Ambrósio, Eddie, Bonsucesso Samba Clube, até artistas mais recentes, como Mombojó, Academia da Berlinda e China.Todo o Nordeste sentiu, em diferentes níveis, o impacto da proposta pernambucana. E a resposta a esse impacto é o que proporciona o sucesso de grupos tão diferentes – embora de alguma forma semelhantes – como o Cordel do Fogo Encantado, o Teatro Mágico e o Móveis Coloniais de Acaju.

São Paulo se tornou a segunda casa dessas bandas de Pernambuco, que habitavam o mesmo cenário musical de bandas de hip-hop alternativo, de rock instrumental e cantoras de MPB, entre os já citados palcos do Sesc e da Vila Madalena. E, naturalmente, a cena formada por bandas da cidade acabaram influenciando os artistas de fora e, naturalmente, a Nação. “Estamos em São Paulo há quase dez anos e sempre moramos juntos, mesmo no começo, quando gravávamos no Rio”, lembra Pupilo. “Mas depois do Rádio S.Amb.A. (2000), a galera resolveu que tinha que se mudar e morar sozinha. A gente morou em Perdizes, na Pompéia… Mas quando a gente assinou com a Trama [em 2001], a gente meio que definiu isso, de cada um ter que se virar. A indústria tá mudando, né? Não tinha como pagar adiantamento pra neguinho ficar um ano num apartamento e tal… E tem horas que cansa mesmo, você fica mais tempo com a galera do que com a família. Mesmo porque quase todo mundo tá casado e tem filho.

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