Matéria sobre a Nação Zumbi na Rolling Stone - 12/2007
Postado por: homenpe em Nação ZumbiO principal reflexo de São Paulo na Nação Zumbi vai além da sonoridade atual, embora esse seja facilmente perceptível nas participações especiais nos últimos discos da banda, como o multiinstrumentista Maurício Takara, o rapper Rodrigo Brandão, a cantora Céu ou os nordestinos radicados em São Paulo, como Junio Barreto e Fernando Catatau. Não são, contudo, as influências de fora para dentro que mexeram com a forma de pensar do grupo, e sim a mudança de pensamento de dentro para fora.
Morar numa cidade cheia de oportunidades com um conjunto que conta com quase dez músicos no palco fez com que a Nação Zumbi inevitavelmente descobrisse novas formas para dar vazão à sua criatividade. Assim, surgiram parcerias e projetos paralelos. Quase todos esses grupos são idéias solo ou afinidades musicais levadas a sério demais, mas inevitavelmente contam com a participação dos outros integrantes da Nação. Eles acabam funcionando como “puladas de cerca” dentro de um relacionamento aberto, assim, cada integrante da banda pode desenvolver uma carreira paralela sem estar preso à nave-mãe que é a Nação Zumbi.
Os projetos foram cruciais não apenas para que cada um pudesse fazer o que bem entendesse sem pedir o aval do grupo como para que a banda reinventasse uma nova forma de gravação e composição. “Porra, pra caralho! É fundamental!”, concorda Pupilo. “A gente tem um leque aberto com som e tem como descarregar isso em outros projetos. E a galera participa, não tem como – faço o 3 na Massa e estão lá Lucio e Jorge. Olha o disco do Maquinado e tá todo mundo lá também. Esses projetos servem de laboratório pra quando chegarmos na hora da Nação, isso já tá filtrado.”
E é quando os oito integrantes sobem no palco que suas diferenças musicais desaparecem e dão origem a uma massa de som inacreditável, que torna seus shows uma tempestade sonora em que ruído, harmonia e groove convergem a um patamar único e inatingível. A Nação Zumbi soa como uma mistura de escola de samba, Led Zeppelin, Massive Attack, Sonic Youth, maracatu e Rage Against the Machine. Claro que a quantidade de músicos no palco acaba por influenciar diretamente no som – não há silêncios, entre as microfonias. Um magnetismo sonoro atravessa toda apresentação, colando as diferentes partes musicais umas às outras como se fossem a versão sonora da matéria escura que teoricamente existe em todo o universo. As partículas de som vibram sem parar.
É quando o ar é movimentado pelo peso do baixo de Dengue ou pelos guinchos da guitarra de Lucio. Instrumentistas irmãos, eles se acompanham como gêmeos inversos: Lucio, exibicionista, faz caretas e estica seu instrumento como se pudesse alcançar o público. O baixista mal sorri, acompanha o som com o pesar que o grave de seu instrumento exige. Atrás dos dois, Pupilo segue mecânico, tão concentrado que parece nem piscar, embora interaja com todos os músicos da banda, com movimentos de cabeça, sorrisos e troca de olhares. À sua direita, Da Lua, Gilmar e Mathias amplificam o ritmo marcado pelo metrônomo humano que é o baterista, alternando, quase sempre, duas batidas com uma, como o ritmo do coração humano.
Na frente, Jorge du Peixe. O olhar distante e atento o torna o mais desconfiado de todos os integrantes da banda, o sorriso mais difícil de se arrancar e a fala dura da convicção irredutível. Ciente de suas limitações vocais, agarra o microfone como se estivesse numa transmissão clandestina, passando mensagens em código que irão ser conectadas de formas menos objetivas que o raciocínio linear. “Quem curte r’n’b, soul jamaicano e hip-hop sabe que, por mais que tenham grandes MCs, tem um canto falado que é a minha escola”, ele contaria mais tarde. Jorge declama letras mais recentes enquanto a banda chapa ainda mais as músicas dos tempos de Chico, quase sempre saudadas com a irônica informação errada: “Essa é nova”.
Disparando samples e conduzindo o vocal, ele parece ser o capitão do barco, o timoneiro. Talvez seja. Mas que não se confunda com o líder da banda. Estamos lidando com elementos de altíssima volatilidade, como harmonia, groove e barulho. A química entre os músicos é sutil e quase imperceptível.
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